Sankofa é Amaro Freitas no seu mais completo amadurecimento!
- Marcelo Gonzales

- 6 de set. de 2021
- 4 min de leitura
(Matéria publicada no Jornal Diário da Manhã - Pelotas/RS em 04,05 e 06/09 Pág. 10)
Na matéria de hoje, vou tentar expressar em palavras um pouco da emoção e energia do bem que esse artista possui. Finalizando a entrevista exclusiva ao Diário da Manhã com o pianista Amaro Freitas, resignifiquei minha forma de ouvir música instrumental e estou ouvindo seu novo álbum Sankofa com mais atenção, até porquê o processo de criação para cada música é único e na maioria das vezes bem complexo.
Esse Pernambucano que saiu da periferia de Recife hoje desponta com merecido destaque no cenário do jazz internacional. Desde o primeiro álbum Sangue Negro lançado em 2016 onde navegava pelos sons do bebop, afrojazz, samba e balada, seguido por sua segunda contribuição que foi Rasif de 2018 que o colocou no cenário internacional ganhando notoriedade em mídias como All About Jazz, BBC Radio e Jazzwise e hoje vamos detalhar seu lançamento que já arrematou 04 estrelas da conhecida Bíblia do Jazz a Downbeat.
Medeiros (Hugo Medeiros – bateria e percussão) e Jean Elton (contrabaixo) completam o Trio Amaro Freitas e juntos levaram 03 anos desenvolvendo esse álbum que tem muito a dizer, muito a mostrar e que já é unanimidade no meio.
45 minutos e 13 segundos que tem em cada música as curvas necessárias para nos fazer refletir e admirar o processo e o significado de nascimento de cada música. Fiz a experiência incrível de ouvir o álbum antes da entrevista para ter a explicação de cada música ditada pelo próprio artista e o que tive foi a constatação deliciosa de ouvir as palavras da música instrumental.
Nas palavras do próprio Amaro Freitas: “Sankofa é o nível maduro da nossa entrega. No trio temos uma sinergia muito bonita que ao longo dos anos já estamos concretos. Esse álbum fecha uma ideia de trilogia já que somos um trio de negros tocando, uma ideia de trilogia muito perfeita pelo nível de maturidade de evolução do trio e ao mesmo tempo em que a gente estava vivendo essas experiências todo esse movimento negro que aconteceu... Na verdade esses movimentos vem como uma onda e agora essa onda está com mais empoderamento, mais potente e foi chegando até mim várias informações sobre o Brasil que eu não conhecia porquê o Brasil não contou a verdadeira história do Brasil”
E trata-se de querer dar sua parcela de contribuição, cada nuance detalhando cada música, como o exemplo ‘de parte’ da explicação de Vila Bela, música que homenageia Tereza de Benguela: “...eu penso nessa grande rainha que foi Tereza de Benguela, que conduziu muito bem esse quilombo durante 20 anos, onde se utilizavam de uma estratégia linda de transformar as armas em panelas e isso é muito simbólico porquê tiravam daquilo que mata transformando para alimentar. Isso é não retroalimentar a violência e sim transformar e fazer o belo. Se a gente for pensar no que sou hoje acabo sendo a exceção de que é possível pois venci várias barreiras e consigo realizar o meu trabalho, mas não estou dentro do discurso da meritocracia pois vim do meio da dureza, da violência, da falta de saneamento e Tereza de Benguela tirando essas armas e transformando, devolvendo o pôr do sol aqueles que nada mais tinham e que eu tomei como a minha missão! Essa é a minha conexão com a ancestralidade. Fecho meus olhos no estúdio e penso no abraço que gostaria de ter dado nela e esse abraço seria muito delicado e eu começo a tocar as primeiras notas e nessas notas eu consigo encontrar um lugar mais fácil do que tirar ritmos complexos, mas sim tirar sons minúsculos, com notas longas no piano de uma forma suave como eu gostaria de dar esse abraço nela...”
Na música Baquaqua, dedicada ao Mahommah Gardo Baquaqua, príncipe que foi trazido ao Brasil como escravo e que escreveu sua própria autobiografia, algo raríssimo de se ver, Amaro Freitas imprimiu na sua narrativa musical um fraseado tenso, agitado e em momentos até mesmo desconfortante que começa com uma única nota como se estivesse tocando num compasso binário e conforme as próprias transformações nas idas e vindas de Baquaqua, em um dado momento o trio entra numa polirritmia tirando todo o chão que parece ser confortável, mas na realidade onde na vida de Baquaqua vem os atravessamentos e contrapontos, Amaro toca dentro de uma tonalidade que traz angústia, e é justamente esse lugar de deslocamento e contraponto, nas palavras do próprio Amaro Freitas, que os tons e compassos se alternam nas mãos direita e esquerda descrevendo os momentos de Baquaqua até sua liberdade, representados ora pelo binário e ora pelo contraponto...
A música que deu nome ao álbum será explicada aqui por último até porquê foi a última a vir para Amaro Freitas trazendo todos os significados do seu nome Sankofa que é representado por um pássaro com a cabeça voltada para trás, um símbolo Adinkra, e nas palavras de Amaro: “Voa com a cabeça para trás para nos ensinar a nossa capacidade de voltar às raízes para realizar nosso potencial de avançar. Sankofa chega para mim falando sobre o resgate de que não é tabu voltar atrás para encontrar aquilo que se foi perdido para que você possa se compreender e através dessa compreensão trazer um futuro melhor. A minha responsabilidade de saber como serão meus atos e as minhas práticas para o futuro é o que eu quero para as próximas gerações estão em cada trecho, em cada história representada em cada uma das músicas desse álbum.”
E aqui deixo meu convite e minha dica dessa semana, escutem Amaro Freitas que se encontra em todas as plataformas digitais e para os que, assim como eu, apreciam a mídia física ele já possui os dois álbuns lançados em vinil e esse espetáculo de Sankofa vc pode reservar em www.amarofreitas.com mas corra pois serão somente 300 cópias! Produção @78rotacoes - Incentivo à música brasileira @naturamusical
Minha meta de vida? Ter os três discos autografados dele!! Por enquanto vamos visitando as plataformas digitais...








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