Ele nasceu há 21.920 dias atrás!
- Marcelo Gonzales

- 28 de jun. de 2025
- 4 min de leitura

Eu é que não vou ficar sentado no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar, prefiro escrever para o Raul Seixas...
Sabe Raul, as coisas continuam estranhas por aqui, e cada dia mais estranhas... Muita coisa mudou e muitas coisas você iria gostar bastante e eu acho que suas músicas incentivaram... Mesmo que muitos não façam a relação delas com o mundo em que vivemos.
O poliamor, que está muito em alta na atualidade, e que se refere a um relacionamento não-monogâmico onde indivíduos podem ter múltiplos parceiros românticos e/ou sexuais com o consentimento e conhecimento de todos os envolvidos, foi muito bem retratado na sua canção A Maçã, lançada em 1975, onde lê-se: “Se esse amor ficar entre nós dois, vai ser tão pobre amor, vai se gastar... Se eu te amo e tu me amas, um amor a dois profana, o amor de todos os mortais! Porque quem gosta de maçã, irá gostar de todas, porque todas são iguais! Se eu te amo e tu me amas, e outro vem quando tu chamas, como poderei te condenar? Infinita é tua beleza! Como podes ficar presa que nem santa num altar?”.
Ainda na área das livres escolhas e no direito de fazer o que quiseres pois será tudo da Lei você retratava na sua canção Sapato 36, lançada em 1977, o desconforto de um filho sendo obrigado a viver de convenções e no ‘socialmente correto’, dando voz e dando um basta ao dizer: “Eu calço é 37, meu pai me dá 36. Dói, mas no dia seguinte aperto meu pé outra vezEu aperto meu pé outra vez! Pai, eu já tô crescidinho, pague pra ver, que eu aposto, vou escolher meu sapato e andar do jeito que eu gosto! Por que cargas d'águas você acha que tem o direito, de afogar tudo aquilo que eu sinto em meu peito? Você só vai ter o respeito que quer, na realidade, no dia em que você souber respeitar a minha vontade! Meu pai, meu pai! Pai, já tô indo-me embora, quero partir sem brigar, pois, eu já escolhi meu sapato que não vai mais me apertar!” e, anos depois, meu amigo Raul, em meados de 1984, você traz o desabafo daquele que não queria servir o exército em Mamãe Eu Não Queria: “Mamãe, eu não queria servir o exército. Não quero bater continência, nem pra sargento, cabo ou capitão, nem quero ser sentinela, mamãe que nem cachorro vigiando o portãoNão! Mamãe eu, eu não queria!!”.
Nossos filhos ainda são obrigados a se inscrever no serviço obrigatório Raul...
Agora, com meus fortes e firmes 52 anos, a canção Ouro de Tolo, escrita por você um ano depois que eu nasci, em plenos 1973, se encaixa tão perfeitamente na minha vida que até acredito, às vezes, que ela foi escrita para mim: “Eu devia estar contente porque eu tenho um emprego, sou o dito cidadão respeitável, e, ganho quatro mil cruzeiros por mês! Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida, mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa. Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis, mas confesso, abestalhado que eu estou decepcionado! Porque foi tão fácil conseguir, e agora eu me pergunto: E daí? Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e eu não posso ficar aí parado!”.
É muito louco, mas você, na canção O Dia Em Que a Terra Parou, lá em 1977, previu a pandemia: “ Foi assim, no dia em que todas as pessoas do planeta inteiro resolveram que ninguém ia sair de casa... Como que se fosse combinado em todo o planeta, naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém... O empregado não saiu pro seu trabalho pois sabia que o patrão também não tava lá... Dona de casa não saiu pra comprar pão pois sabia que o padeiro também não tava lá... E o guarda não saiu para prender, pois sabia que o ladrão também não tava lá, e o ladrão não saiu para roubar pois sabia que não ia ter onde gastar... No dia em que a Terra parou!”.
Sigo tentando ser uma metamorfose ambulante, e, depois de uma graduação em Administração e uma especialização em Marketing, agora, faço Jornalismo! Mas mesmo trabalhando muito, horas por dia, me sinto igual um Cowboy Fora da Lei, que por sinal foi a música -segundo os dados do ECAD- que mais foi reproduzida este ano pelos meros mortais que sentem sua falta! Eu sinto!
Para finalizar Raul, você que deve estar lendo esta carta em alguma galáxia distante, tem
os no momento para te homenagear uma série sobre sua vida, que já ouvi dizer que é bem rasa, lançamento de EP e Vinil, Shows e Exposições... Você deve estar rindo muito disso tudo!
Saudades de você, seu velho maluco beleza! Por aqui seguimos mas, que fique claro, seu moço, se você passar por aqui me leve no seu disco voador, não me deixe aqui, enquanto eu sei que tem tanta estrela por aí!







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